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Genética indica origem polinésia do zika vírus

Pesquisadores do Instituto Pasteur da Guiana sequenciaram o genoma completo do zika vírus. Segundo sua análise genética, o patógeno que se espalha por toda a América é aparentado do vírus que castigou várias ilhas do Pacífico em 2013 e 2014. No ano seguinte apareceram os primeiros casos no Brasil. No país, o número de casos suspeitos de bebês nascidos com microcefalia já chega a 3.893, segundo o mais recente boletim divulgado pelo Ministério da Saúde.

Com mais de um milhão de infectados em menos de um ano, os efeitos do zika vírus não costumam ser severos e não vão além de uma erupção no rosto (exantema) e um pouco de febre. Às vezes coincide com o aparecimento de um transtorno autoimune, a síndrome de Guillain-Barré. Em raras ocasiões, este arbovírus (ou seja, que usa antrópodes como vetor de transmissão) pode provocar a morte, mas quase sempre como causa concomitante. O que é aterrador, porém, é que o zika vírus parece não ter compaixão dos não nascidos.

Ainda não se estabeleceu uma conexão causal entre o vírus e a microcefalia em recém-nascidos que vem ocorrendo na atual epidemia, mas está longe de ser uma coincidência. NoBrasil, até o dia 20 de janeiro, o Governo contabilizava 3.893 casos suspeitos de microcefalia, sendo que na maioria dos casos ainda era investigada a ligação da doença com a contração do vírus. Deste total, 49 bebês morreram por malformação congênita, todos na região Nordeste, sendo que em cinco casos foi confirmada a relação com o zika. Em muitos dos casos detectados, além disso, os ainda pequenos apresentavam graves lesões nos olhos, entre outras lesões cerebrais. Também afetada, aColômbia desaconselhou as mulheres a engravidarem em 2016, por medo da epidemia de microcefalia.

“Esses defeitos são provocados somente pelo zika vírus, a propagação conjunta com outros agentes infecciosos ou por outros fatores? Precisamos pôr em andamento projetos de pesquisa multidisciplinares para resolver essas incógnitas”, diz em uma nota a responsável pelo laboratório de virologia do Instituto Pasteur na Guiana, centro de referência em arbovírus, Dominique Rousset. Rousset e seus colegas já deram o primeiro passo sequenciando o genoma do vírus.

No final do ano passado as autoridades sanitárias do vizinho Suriname começaram a detectar os primeiros casos de zika e pediram ajuda ao Instituto Pasteur. Chegaram a seu laboratório amostras de quatro casos que, depois de se descartar que se tratasse de dengue ou chikungunya, deram positivo para esse arbovírus, também transmitido pelo mosquito da febre amarela (Aedes aegypti) e, em menor medida, pelo Aedes albopictus, mais conhecido como mosquito tigre.

De uma das amostras os pesquisadores puderam sequenciar o genoma completo. Das outras três, obtiveram informação genética de uma proteína presente no envoltório viral, a camada externa que protege o vírus e que toma emprestada das células que infecta. Com todos esses dados, os cientistas puderam criar uma árvore filogenética da cepa que está castigando as terras americanas.

Os resultados, publicados na revista The Lancet, indicam que o zika americano não pertence à linhagem africana (continente onde se descobriu o vírus em meados do século passado), mas ao asiático, de mais recente surgimento. De fato, a análise de seu genoma mostra uma homologia de 99,7% com a cepa responsável pelo surto na Polinésia francesa em 2013.

Um olhar à árvore filogenética com um mapa do mundo na mão convida a desenhar a rota que o zika vírus seguiu ou, melhor dizendo, seus vetores, os mosquitos. A origem do genótipo asiático remonta a 1966, com os primeiros casos na Malásia. Mas a cepa americana atual é muito aparentada com a que apareceu na ilha de Yap, nas Carolinas, em 2007. Depois foi a vez da Tailândia e Camboja. Mais tarde, e quase saltando de ilha em ilha, o zika vírus alcançou as Ilhas Salomão, Vanuatu, Ilhas Cook e a Polinésia Francesa, até chegar à ilha de Páscoa. Os casos seguintes já se deram no continente americano.

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